Autonomia & Tecnologia

Tornando-se Ágil: Responsabilidade Vs Competência

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Hoje, o meu amigo Rafael Lima publicou uma série de perguntas sobre os papéis no Scrum. As perguntas são muito interessantes e me levaram a refletir sobre a “estrutura da agilidade”. Seguem algumas das minhas conclusões após conversar bastante com Vitor Mazzi e Rodrigo Cacilhas.

A questão que mais despertou minha atenção foi:

“É papel do Product Owner trazer o que ele quer já detalhado em forma de itens do software a ser desenvolvido ou é papel do Scrum Master entender a necessidade de negócio e traduzir em software?”

Ao ler essa pergunta, percebi que a palavra papel possui a conotação de responsabilidade.

No dicionário, a definição de responsabilidade é:

responsabilidade (s. f.)

  • Obrigação de responder pelas ações próprias, pelas dos outros ou pelas coisas confiadas.

A definição já sugere que responsabilizar alguém, significa de alguma forma, definir o culpado por algo. E isto pode ter um resultado nada ágil.

Quando definimos as responsabilidades em um projeto, estabelecemos um foco que pode agir como uma distração para o objetivo final. Ao dizermos que o P.O. é responsável por entregar os itens do que quer, definimos algo pelo qual ele será cobrado. Consciente ou inconscientemente ele se lançará nesta missão, mesmo que ele não seja a melhor pessoa para isso.

Pode-se alegar que este comportamento seria extremista, afinal ele poderia consultar os outros da equipe em busca de auxílio. Porém, se todos na equipe tem suas responsabilidades delimitadas, todos focarão para cumprí-las. Neste cenário, as pessoas são coagidas a cumprir suas responsabilidades, o que não necessariamente garante o sucesso do projeto.

Acredito que este cenário tenha uma forte tendência à falhas, eventualmente transformando P.O. em Analista de Negócios e Scrum Master em Coordenador ao invés de Facilitador. Ou seja, um comportamento tradicional com novos nomes. Nada ágil!

Mas e como fica então a resposta à pergunta?

Bem, uma estratégia alternativa poderia começar com a substituição da palavra responsabilidade por competência. O dicionário define competência:

competência (s. f.)

  1. Direito, faculdade legal que um funcionário ou um tribunal têm de apreciar e julgar um pleito ou questão.
  2. Capacidade, suficiência (fundada em aptidão).
  3. Atribuições.
  4. Porfia entre os que pretendem suplantar-se mutuamente.

Quando em uma equipe, definimos competências, definimos apenas fronteiras e não os caminhos.

Desta forma, liberamos todos, consciente e inconscientemente, para atuarem em quaisquer áreas necessárias. Quando surgirem dúvidas ou impasses, estes deverão delegar, envolver, consultar, procurar, interagir, se comunicar, com quem for de competência. É desta forma que pode-se abraçar as mudanças e lidar com as incertezas do projeto dia após dia, mantendo o foco no valor a ser criado.

A grande barreira que vejo para a implantação desta estratégia é a verdadeira disposição de todos para investir nesta transição. Tornar-se ágil leva tempo. Principalmente quando a equipe e a empresa vem de uma cultura tradicional. Por vezes, prazos apertados e outras preocupações farão a equipe ceder ao mau hábito vigente. Por tanto, é preciso insistir e persistir para que se criem novos hábitos. E isto não é algo que ocorre da noite para o dia, nem mesmo comprando um pacote de Scrum para comer no café da manhã. 😉

[]’s!

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  • Vinicius Braga

    Esse texto ajuda a perceber como a mudança de nomes e técnicas não podem ajudar quando no fundo você quer se destacar individualmente numa empresa, como é o sistema hoje.

    O sistema de hierarquia de cargos e salários atrapalham qualquer nova metodologia em uma empresa. Essa é minha visão e porque sou discrente destes métodos em empresa setorizadas. Empresas pequenas tendem a se beneficiar verdadeiramente, criando um ambiente mais saudável de trabalho.

  • caike

    “(…) um foco que pode agir como uma distração para o objetivo final.”

    Perdi a conta de quantas horas já vi sendo gastas em busca de um culpado (o tal “responsavel”) para algum bug encontrado ou algum requisito não atendido. Enquanto isso, o problema persistia e ninguem procurava resolvê-lo! O objetivo final – satisfação do cliente – ficava completamente esquecido.

    Apenas seguindo a famosa metodologia C.Y.A. – Cover Your Ass!

  • Andre Fonseca

    Adorei este teu artigo vai de encontro a tudo que acredito sobre ser agil.
    Hoje é moda dizer que uma empresa é agil mas na verdade houve apenas uma mudança de nome para os as pessoas e elas continuam fazendo exatamente oque faziam antes sendo que agora com quadros bonitos fingindo kanban e Lean.
    Vamos ver se as pessoas acordam e na terceira adotam de verdade XP e agilidade.