Autonomia & Tecnologia

Comunidade não é fim, é meio.

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Mais um episódio envolvendo o Linus e um de seus projetos no Github aconteceu na última sexta-feira. Como era de se esperar um monte de gente participou criando uma thread no mínimo esquizofrênica. Muitos assuntos acabaram misturados, mas eu quero tratar de um especificamente: comunidade.

As reações já eram muitas e de início li as primeiras 5 mensagens da thread e me espantei com o fato de, apesar de toda a comoção, ninguém criticou o @jaseemabid. Mesmo após o Linus ter respondido o autor do pull request, ele sugeriu que “deixasse passar essa” por considerar um patch simples, afinal o cara estava colaborando. A afirmação paternalista foi desrespeitosa, apesar de provavelmente não ter sido maliciosa.

O Linus respondeu, e foi este o estopim para vários comentários que em essência são “pró-comunidade” e “contra o mau exemplo de liderança do Linus”.

Tenho a impressão que há uma tendência à inversão entre meio e fim quando o assunto é comunidade, contribuição e colaboração. Os discursos retratam a comunidade como o fim maior, enquanto comunidade é na verdade o meio mais rico para o florescimento de iniciativas livres e distribuídas. A comunidade é uma rede social e em si é ela só potencial. IMHO, a força que realmente vence a inércia é o fazer de cada um. Fazer por si mesmo. Não com um senso de individualismo ou egoísmo, mas fazer porque você deseja, gosta, acredita que deve. Não para um “bem maior” ou “bem comum”.

Essa confusão é natural e já aconteceu no #Horaextra do Rio, por exemplo. O encontro estava crescendo e sustentando o crescimento com a participação de cada vez mais gente interessante. Em certo momento surgiu uma preocupação com “não deixar aquilo morrer”, afinal estava tão bom! Por que não persistir e escalar? Com isso, iniciou-se uma discussão estranha que em essência, levava à uma institucionalização do #Horaextra. Discutimos muito e aprendemos que para o #Horaextra não morrer bastava que uma pessoa continuasse comparecendo. A continuidade só dependia do desejo individual de cada um. Felizmente concluímos que o #Horaextra é só um chopp e nada mais. Se morresse, seria porque as pessoas desejavam fazer outra coisa em vez de ir para aquele encontro e isso é ótimo.

Esse entendimento foi determinante para que outras iniciativas pudessem se inspirar naquele exemplo. No entanto, cada uma seguiria tocando seu barco independentemente, segundo os desejos individuais dos que empreendessem a nova iniciativa.

Um belo fruto disso foi o #HoraextraBH. É uma iniciativa fantástica com uma identidade toda própria, com a qual também me identifico muito. Tanto que já até cometi o equívoco de propor uma fusão entre as listas de discussões do Rio e de BH, o que não faz sentido algum. São duas iniciativas independentes e quem se identificar com ambas, basta se inscrever nas duas listas e interagir com a turma.

Mas para que eu falei tudo isso? Bom, uma coisa que admiro no Linus é que ele tem uma capacidade incrível de imaginar algo e transformar a sua realidade pautado em sua imaginação. Querer é o suficiente para ele se lançar em uma iniciativa, mesmo que não dê em nada. E o cara faz isso há mais de 20 anos.

O fato dele ter conduzido algumas iniciativas de forma pública e aberta ajudou todo um movimento a emergir entorno do Linux e tudo o mais. Mas é fundamental ter em mente que cada iniciativa emergiu por desejo de outros indivíduos que não ele. Isso é importante, pois ele não é e nem parece querer ser lider de ninguém. E isso choca as pessoas! Afinal, florestas inteiras são consumidas para propagandear estratégias coercitivas travestidas de “liderança” nas páginas da Você S.A. e similares.

Acho que isso é um ponto relevante que parece passar despercebido. A maioria das pessoas esperam dele o comportamento de um líder, rei, herói, pai, salvador. Mas o cara só segue seu desejo e pronto. Ele interage com um monte de gente? Sim, mas nos termos dele, e com aqueles cujos valores estão alinhados com os dele. Ouso dizer sinceramente, que ele parece tratar o Linux como “só um chopp”.

Qualquer um pode “tomar um chopp” com ele. As instruções são vastas. Mas se ele já disse explícitamente que não aceita pull requests pelo Github, porque as pessoas insistem? É direito dele trabalhar como deseja e se o outro discorda, é direito do outro se negar a contribuir. Normal. Não gostou? Faz um fork do projeto e sustenta seu fork! Simples, mas exige uma alta capacidade agir pelo seu desejo.

No entanto, quando acontecem esses episódios, rapidamente surgem os discursos “paz e amor”. Discursos furados, até meio socialistas, de igualdade e esforço em prol de um bem comum materializado em código. Discursos falsos sobre comunidade, pois uma comunidade que não respeita a liberdade do indivíduo não é comunidade. É outra coisa, é massa, público, platéia, audiência. É um passo para a conversa de “bem comum”, “bem maior” e a história está repleta de péssimos exemplos que aconteceram por um bem maior.

[]’s, HB!

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  • Mauricio de Abreu Antunes

    Eu acho que ele foi, no mínimo, um pouco egoísta. Acho que quando não se gosta de alguma coisa, não devemos usar certas palavras. Uma simples palavra pode se tornar um furacão. Certamente, se ele fosse uma pessoa não famosa, a coisa teria tomado outro rumo. Por exemplo, numa empresa de software comum isso seria passível de desgosto dos colegas, não concordam?

  • Mauricio de Abreu Antunes

    Eu acho que ele foi, no mínimo, um pouco egoísta. Acho que quando não se gosta de alguma coisa, não devemos usar certas palavras. Uma simples palavra pode se tornar um furacão. Certamente, se ele fosse uma pessoa não famosa, a coisa teria tomado outro rumo. Por exemplo, numa empresa de software comum isso seria passível de desgosto dos colegas, não concordam?

  • Sinceramente não sei se isso é uma mania do brasileiro, mas se tem o costume de julgar o trabalho pelas pessoas que o aplicam, não estou afirmando que ele foi rude ou coisa assim e se realmente tivesse sido, o que o projeto tem haver com isso? acho que precisamos separar as coisas, não é porque o cara bebe chopp com você que ele vai ter que aceitar todas as suas opiniões, no final cada um tem uma maneira de interagir com as outras pessoas, temos que ser pacientes e analisar a coisa como um todo.

    Prefiro acreditar que ele não tenha sido grosseiro, prefiro por uma imagem que eu criei dele como pessoa, mas se foi, não muda em nada o fato de ele ser um gênio e que seus projetos são brilhantes, se isso te incomoda, simplesmente não contribua!

    abraços a todos do blog

  • Marcius Oliveira

    Sinceramente não sei se isso é uma mania do brasileiro, mas se tem o costume de julgar o trabalho pelas pessoas que o aplicam, não estou afirmando que ele foi rude ou coisa assim e se realmente tivesse sido, o que o projeto tem haver com isso? acho que precisamos separar as coisas, não é porque o cara bebe chopp com você que ele vai ter que aceitar todas as suas opiniões, no final cada um tem uma maneira de interagir com as outras pessoas, temos que ser pacientes e analisar a coisa como um todo.

    Prefiro acreditar que ele não tenha sido grosseiro, prefiro por uma imagem que eu criei dele como pessoa, mas se foi, não muda em nada o fato de ele ser um gênio e que seus projetos são brilhantes, se isso te incomoda, simplesmente não contribua!

    abraços a todos do blog

  • Marcius Oliveira

    Sinceramente não sei se isso é uma mania do brasileiro, mas se tem o costume de julgar o trabalho pelas pessoas que o aplicam, não estou afirmando que ele foi rude ou coisa assim e se realmente tivesse sido, o que o projeto tem haver com isso? acho que precisamos separar as coisas, não é porque o cara bebe chopp com você que ele vai ter que aceitar todas as suas opiniões, no final cada um tem uma maneira de interagir com as outras pessoas, temos que ser pacientes e analisar a coisa como um todo.

    Prefiro acreditar que ele não tenha sido grosseiro, prefiro por uma imagem que eu criei dele como pessoa, mas se foi, não muda em nada o fato de ele ser um gênio e que seus projetos são brilhantes, se isso te incomoda, simplesmente não contribua!

    abraços a todos do blog

  • O problema é que as pessoas acham que porque é uma ‘comunidade aberta’ deve aceitar todos de qualquer jeito. O cara cuida a 20 anos de um sistema operacional, o maior projeto de software do mundo e não pode escolher como quer receber as contribuições? Quer colaborar? A comunidade esta aberta, é só seguir as regras.

    Ele pelo visto é ‘grosseiro’, pelo menos pros nossos costumes. Não me espanta, porque a maioria das pessoas pragmáticas e objetivas que eu já conheci, em determinado momento soam secas ou grossas.

  • Texto muito bacana. O chopp do Linus atrai muita gente, muitas delas um pouco desinformadas. Acho bom ele sempre explicar o por quê de suas ações, abertamente, mas acho que todo o reboliço não foi por ele não “dar uma de pai”. Foi por ser rude mesmo.

    • Vale atentar que ele não foi rude com a pessoa que submeteu o patch. Ele “revidou” o comentário de outra pessoa. Certamente eu teria feito diferente, mas cada um é de um jeito diferente.

  • Luca Bastos

    Henrique

    Para mim, ego transbordando é o que mais via neste tipo de discussão. Este é um dos motivos porque não leio mais.

    Pode ser que esta que também não li, não seja exatamente este caso. Mas aí provavelmente seria uma exceção.

  • Exato, Henrique. Mas só entendi de segunda e espero que os outros não caiam no mesmo erro que eu 😉

  • Luca, obrigado amigo.

    Pessoalmente, por tudo que escrevi acima, discordo integralmente da redução do episódio à um “extravasamento de ego”.

    Me parece muito mais do que isso. Mas compreendo que este seja um dos veredictos mais populares.

  • Luca Bastos

    Legal o ponto de vista do primo.

    É claro que da discussão do Linus eu não sabia nada e nem vou procurar saber. De fofocaiada quero distância e tempo hoje é bem escasso..

    Gostei do seu texto, de como entende e encara as coisas.

    Mas pera aí, o #horaextra é MUITO mais importante do que extravasamento de ego na lista de linux.

  • Aproveitando seu comentário, Gustavão, deixa eu complementar.

    Não é pautado na _individualidade_ nem no _individualismo_, mas sim no _desejo individual_ de cada um.

  • Totalmente excelente!

    Num primeiro momento cheguei a ficar um pouco chocado com o texto por achar paradoxal sustentar uma comunidade pautada na individualidade, por que não entendi o racde primeira.

    Fiz uma segunda leitura e aí tudo fez sentido e mostra o porque muitas ações travestidas de “comunidade” morrem rápido. No final o que importa e o que mantém as mantem sólida no longo prazo é o interesse de cada um na iniciativa. E, principalmente, o que cada um faz para contribuir.