Autonomia & Tecnologia

Balanço da PyCon 2010

Este artigo foi publicado na sessão de Eventos em abril de 2010 na Revista TIdigital.


Participar da PyCon 2010 foi uma experiência incrível que quero compartilhar com os leitores da TIdigital. Realizada em fevereiro deste ano, no Hyatt Regency Atlanta, a conferência tomou dois andares do hotel, onde havia seis auditórios para palestras, que eram separadas por divisórias e oito salas para openspaces. Estas divisórias eram removíveis, transformando cinco dos seis auditórios em um ambiente único gigantesco, onde eram realizados os Keynotes (Palestras-chaves). Uma infraestrutura impressionante, que recebeu muito bem os 1.106 participantes do evento. Foram nove dias de muito networking que, com certeza, ensinaram muita coisa boa e revolucionaram a maneira de pensar de muitos desenvolvedores Python.

A programação da PyCon é tão grande e diversificada que fica até difícil saber quais palestras acompanhar. Os Tutorial Days foram realizados durante os dois primeiros dias do evento. Neles, membros de comunidades de todo o mundo realizaram minicursos. Participei de dois: o Django in Depth, com James Bennett; e o Django Deployment Workshop, com Jacob Kaplan-Moss.

Na sequência, a conferência contou com 96 palestras distribuídas em três dias. Isso sem contar com as sensacionais Lightning Talks! As palestras-relâmpago aconteceram no início e no final dos dias do evento, durante cerca de uma hora. Qualquer participante podia se inscrever para palestrar nas Lightning Talks. Ali, os inscritos ligavam seus computadores, utilizavam os telões e davam os seus recados em um curto período de cinco minutos! O suficiente para divulgarem informações superimportantes, como fez Peter Fein, que falou sobre o Please Pirate. Basicamente, ele diz: “Pegue o que escrevi e, por favor, pirateie! Não se preocupe com licença, faça acontecer, passe para frente! A informação já é livre, então, renuncie seus direitos e pirateie!”

Coroando a reta final da PyCon 2010, tivemos os Development Sprints. Durante quatro dias a organização do evento disponibilizou salas, mesas e infraestrutura de rede para que a comunidade pudesse programar! Grupos de voluntários, experientes ou não, se reúnem para ajudar a evoluir diversos projetos de Software Livre. A colaboração e a troca de informação são fascinantes! Eu participei com a turma do Django e do Pinax, mas a experiência geral foi tão legal que eu até registrei vários times com a minha filmadora.

Palestrando na PyCon

Na minha palestra, pude notar que os espectadores ficaram surpresos com a abrangência do Python no Brasil, com o tamanho da comunidade – são mais de três mil pessoas nas listas brasileiras de e-mails – e com o fato de o governo brasileiro apoiar o software livre explicitamente. Quando mostrei as coisas que nós fazemos por aqui, como a PythOnRio, a PythonCampus, o #Horaextra, o Dojorio, (agora também tem o Forkin’Rio), o Dev in Rio – que foi organizado em apenas 20 dias –, e o foco que damos aos estudantes, eles ficaram impressionados. Falei sobre a nossa maneira informal de reunir pessoas. Lá, as comunidades marcam um horário, alguém apresenta uma palestra e acaba por aí. Aqui, nós focamos em conhecer pessoas e estabelecer uma relação com elas. Assim, muitas conversas são fomentadas e um espírito de colaboração emerge, promovendo a troca de todo tipo de conhecimento. Essa questão humana, que tem certa relação com a cultura brasileira, deixou o público bastante entusiasmado e curioso, gerando várias perguntas interessantes ao final da apresentação.

O ponto alto foi, sem dúvidas, a conscientização do público de que pequenas ações geram grandes revoluções. Mostrei isso com um vídeo dedicado às mais de 300 pessoas da comunidade que me ajudaram de alguma forma a chegar ali, culminando no Small Acts Manifesto, uma declaração com os dez valores que fazem a nossa comunidade dar certo. Estes pontos motivam todas as nossas iniciativas. No site, as pessoas que se identificam com estes valores podem assinar o manifesto e passá-lo adiante como bem entenderem, afinal é Creative Commons. Com menos de um mês no ar, já temos quase 80 102 assinaturas, sem sequer fazermos qualquer tipo de divulgação. Este tema teve uma repercussão bacana na PyCon e gerou muita conversa nos corredores, onde conhecemos muita gente. Para conferir, assista à palestra.

A desconferência é onde a conferência acontece

Por falar em conhecer pessoas, jantares e festas não faltaram. Fui convidado para o Speaker’s Dinner, um jantar oferecido pela Python Software Foundation aos palestrantes. Participei também da Festa dos Voluntários, onde fiz bons amigos, conheci grandes nomes e troquei ideias. Estes momentos de descontração mostram claramente que, apesar de ter altíssima carga técnica, o evento é focado em pessoas. Conheci gente da França, China, Alemanha, Argentina, Venezuela, Polônia, Índia, Israel, Ucrânia e de tudo que é canto dos EUA. Fiquei impressionado com a diversidade de pessoas de muitos lugares, com interesses diferentes. Havia pessoas focadas em web, em robótica, no interpretador da linguagem e por aí vai. Toda a comunidade Python se reuniu para trocar informação. Isso dá uma atmosfera cosmopolita, de uma nação sem fronteiras. Não tem essa de “sou brasileiro”, e, sim, sou um ser humano apaixonado por tecnologia e meu idioma nativo é Python.

Uma coisa marcante que vi na PyCon e gostaria de trazer para o Brasil, é a concentração de pessoas que simplesmente botam a cara à tapa, seja criando código, corrigindo uma linha, um ponto que faltava na documentação. Isso me impressionou bastante. Eles fazem e publicam! Contribuem seja como for. Se o código não é dos melhores, não tem problema, alguém poderá modificá- lo. É um processo em constante metamorfose, que depende completamente de um senso de baixa autocrítica e confiança no grupo. Há muito desenvolvedor fera no Brasil e eles precisam colocar esse potencial “na rua”. Em resumo, o código que você escreve não te define! Pode dizer algo sobre o contexto no qual você o escreveu, mas isso não é suficiente para dizer o que você é ou deixa de ser. Portanto, pare de engavetar projeto e publique tudo na internet.

Aproveitando que estava “fugido do Brasil”, fui para a Flórida após a PyCon. Lá, participei do encontro do Orlando Python User Group, onde apresentei novamente a minha palestra e ajudei meu grande amigo Caike Sousa a realizar um super Coding Dojo nos moldes do DojoRio, junto com os outros participantes. Na sequência, visitei alguns amigos. Fui na Hashrocket (veja as fotos) para rever o Obie Fernandez, dono da empresa e figura muito influente na comunidade Ruby on Rails, e o Jon “Lark” Larkowski, outra figurinha carimbada da comunidade Rails. Fora isso, visitei a EnvyLabs, do Gregg Pollack, onde o Caike trabalha atualmente (veja mais fotos). Valeu o roteiro!

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