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Ainda Somos Tão Jovens

O filme “Somos Tão Jovens” retrata o processo do Renato virar Russo, com todos os seus dilemas e complexidades. Gostei tanto do filme que decidi escrever este artigo.

Como entendedor de cinema, eu sou um ótimo jogador de purrinha. Então vou me limitar às reflexões que o filme me provocou.

“Deve ser difícil viver na sua cabeça.”

Essa é uma frase que costumo ouvir bastante em casa quando converso sobre minhas ideias e visões “incomuns”.

Então se você é dessas pessoas que tem a mente agitada, assistir ao filme vai lhe proporcionar uma certa paz, pois devia ser ainda mais difícil viver na cabeça do Renato Russo.

Brincadeiras à parte, as tensões de se lançar em busca da percepção do que se deseja ficam muito bem retratadas no filme. O ator consegue transmitir com muita sensibilidade as ondas de tédio, dúvidas e os impulsos que motivam ações incompreendidas, mas muito necessárias.

Singularidade

Como diria Sílvio Meira, o futuro vem do futuro.

Quem diria que de um grupo de adolescentes que não tinham mais o que fazer surgiriam diversas bandas que trilhariam o caminho que hoje conhecemos?

Ninguém! O sucesso como instituído e vendido socialmente é improvável, por isso é tão importante construir sua própria definição de sucesso.

É muito interessante a trajetória caótica de sucessivos nascimentos, mortes e ressurreições de bandas.

Esse grau de liberdade é importante para que se continue fazendo, tentando, mesmo com o desconforto de não compreender antecipadamente o que se faz.

Em uma cena em especial, os integrantes do Legião Urbana estão discutindo: “e se não der certo?”; E o Renato afirma: “Eu não quero nem pensar em alternativa.”

Essa é a virada de chave. Uma decisão a despeito das circunstâncias.

O Nativo e o Outsider

O filme tem muitas cenas interessantes que retratam “maluquices” cotidianas.

Todos temos as nossas. Mas quando expostas ao social, a reação padrão é de estranheza seguida pelo julgamento: “Esse cara é maluco”.

Atitudes como perder um show para meditar sobre a morte do John Lennon porque a Yoko Ono pediu.

Julgar o que não se compreende está na raiz da intolerância. O outsider, que não compreende o comportamento e as motivações do nativo, julga, deixando de reconhecer o outro como alguém, e o reduzindo à alguma coisa.

O remédio para este comportamento é a “observação participativa”, um conceito antropológico que enfatiza: observar sem interagir não proporciona compreensão.

Julgar sem compreender nos leva a ignorar que é possível haver sentido, por mais que não se perceba lógica.

Em algum momento a gente esqueceu que sentido vem de sentir e não de racionalizar. O resultado desse esquecimento? Um monte de outsiders julgando nativos e divulgando seus veredictos vazios no Facebook, sem compreender que de alguma forma, todos somos nativos e outsiders em diferentes situações.

Homofobia

Como mencionado pelo Pablo Villaça, o filme demonstra covardia ao abordar os dilemas sexuais do protagonista.

O filme já vinha tratando do tema sexualidade, até que Renato conhece Carlinhos e se segue uma cena bonita e muito humana, retratando duas pessoas se conhecendo e se reconhecendo.

Mas uma parte da platéia pareceu não estar vendo o mesmo filme que eu. Logo quando os personagens se conhecem, a platéia reage em coro com murmurinhos e risos.

Me senti extremamente constrangido, ofendido e em seguida, profundamente triste.

Acho que aprendi o que é homofobia. A homofobia velada. É uma coisa mínima, uma sutileza que passa despercebida, mas que ofende profundamente e não permite defesa.

Fiquei triste ao constatar que a homofobia e as demais fobias sociais, não se resumem a intolerância. Mais do que intolerância, há uma incapacidade de apreciação das diferenças. As pessoas estão incapazes de reconhecer o afeto, o amor, a humanidade na relação entre duas pessoas quaisquer.

Quanto tempo são 30 anos?

Pra mim, que tenho essa idade, é tudo. Mas parece que culturalmente 30 anos são 30 segundos.

A contemporaneidade das letras do Renato Russo é assustadora. Aquelas músicas poderiam ter sido escritas hoje pela manhã.

Saí do cinema com a sensação de que não se passaram 30 anos no Brasil. Ainda nos falta sensibilidade para nos reconhecermos uns nos outros. Essa falta de empatia, consequentemente, gera falta de engajamento para fazermos as mudanças por nós mesmos.

Ainda não conseguimos ler além do que está literalmente escrito, nem ver além do que está explícito na cena. Precisamos de óculos melhores para lermos as entrelinhas das questões, das notícias, das inúmeras distrações que nos empurram para a ignorância.

Não, isso não é uma reclamação. É um ato de conscientização. Um lembrete de que ainda tem chão pela frente. De que ainda não estamos onde queremos. Ao menos eu ainda não estou.

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