A inevitável ruptura da comunidade

Na PythonBrasil 2016 eu fiz uma palestra com este título onde abordei a importância de manter o diálogo aberto para evitar que os perigos da crescente polarização política gerem rupturas nas comunidades de programadores.

Não foi uma palestra fácil, por eu considerar o assunto espinhoso e importante. Mas pelo feedback positivo das pessoas que não me conheciam e assistiram a palestra, estou confiante de que o tom foi adequado abrindo espaço para boas conversas que têm seguido.

Recentemente o vídeo foi divulgado em um grupo no Facebook e recebi uma crítica muito interessante:

Exceto pelo (ao meu ver) conceito equivocado da palavra autonomia (“Autonomia é um termo de origem grega cujo significado está relacionado com independência, liberdade ou autossuficiência”). Desculpe-me o autor mas não conseguir ligar autonomia com relacionamento entre pessoas.

No mais, boa palestra, porém mais de cunho motivacional do que técnico. Não curto muito esse tipo de palestra.

Isso me botou pra pensar e me motivou a explicitar em palavras o contexto que me levou até a definição de autonomia que eu uso. Essa foi a minha resposta:

Boas observações! Obrigado por compartilhar. Acabei refletindo e escrevendo uma resposta pra tentar endereçar suas questões. Desculpe não conseguir escrever menos 😀 😀 😀

Quando comecei a pensar em autonomia esbarrei na definição “capacidade de governar-se pelos próprios meios”. No início tive a impressão que isso implicava independência, ou mais explicitamente, que os outros não importariam se você tivesse autonomia. Parecia uma dualidade entre uma visão anarquista da coisa e uma visão tirana onde a sua vontade é imposta à despeito do contexto. Por isso nessa época a palavra não me cativou.

Com o tempo fui esbarrando em outras definições de autonomia (Kant tem uma elaborada que eu nem sei explicar direito), afinal as palavras são polissêmicas e a língua vai se transformando com o tempo, simultaneamente mantendo conexão com as origens e adaptando aos contextos contemporâneos.

Eventualmente comecei a estudar redes (de pessoas) e a praticar o que aprendia nas comunidades que comecei a participar. Não me limitei à comunidades técnicas ou de prática. Essa experiência me fez compreender profundamente que a vida humana é intrinsecamente atrelada às relações. A psicologia me mostrou isso inequivocamente em muitas outras referências. É a tal afirmação “humanos são seres sociais”. Sim de fato. Mas não só isso.

Humanos são seres sociais presos à sua experiência individual. Ninguém sente exatamente o que o outro sente. Há uma dualidade natural na vida humana, individual-social. Foi isso que me trouxe novamente de encontro à palavra “autonomia”. Entendi que qualquer definição de autonomia precisa necessariamente contemplar relações. Inclusive a definição original que mencionei lá em cima sobre “governar-se”. Um país não se governa autonomamente sem que os demais países reconheçam sua legitimidade. Há relação até nisso.

Foi aí que eu comecei a investigar o que seria autonomia nesse contexto das relações humanas. Principalmente porque na minha experiência, os ideais antagônicas de “tudo pelo social” e “ordem e progresso”, nunca me cativaram.

Talvez por eu nunca ter conseguido me enquadrar em padrões, percebo que é fundamental o espaço do indivíduo e sua subjetividade. Também não acredito na alegoria de que “o ser humano é só amor”. Até onde vejo, o ser humano é intrinsecamente capaz de coisas belíssimas e atrocidades inimagináveis, e o desafio é viver e coexistir “administrando” essa natureza (e quem sabe experimentar um pouco de felicidade no caminho).

Isso nos trás à questão da palestra ser “motivacional”. De fato é uma forma de ver. Minhas palestras são sempre sobre coisas que ficam martelando na minha cabeça. São tentativas de responder às perguntas que eu vivo revisitando: “Qual a forma apropriada de eu agir promovendo um ganha-ganha-ganha pra (1) mim, o (2) próximo e a (3) sociedade?”

Não me parece trivial. É muito difícil alinhar as 3 pontas. Portanto exige muita auto-educação, prática e aprendizado.

É aí que entra autonomia na minha definição: ”Habilidade de se relacionar de igual pra igual com qualquer pessoa.”

Pra chegar no ponto de se sentir à vontade de lidar com qualquer pessoa, criando caminhos que alinham as 3 pontas, é preciso ralar um bocado. Ao menos tem sido ralação pra mim. 🙂

PS: Pode ser que minha definição mude, evolua com o tempo. Não tenho esse tipo de preocupação. Pra mim é uma ferramenta de comunicação e prática.

Novamente, obrigado!

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  • Bruno Santana

    Eu acho que esse é o seu grande diferencial Henrique Bastos: o foco no ser humano.

    Somos todos seres humanos e nunca atingiremos a perfeição. Mas o lado bom é que unidos somos sempre mais. 1 + 1 pode ser maior que 2. Sinergia!

    A comunidade de Python é fantástica e eu concordo com você em ter essa preocupação para mantê-la com essa característica. Não podemos deixar a comunidade perder o que ela tem de melhor e que a faz diferente das demais.

    O código é apenas um meio, uma ferramenta. O fim é a evolução do ser humano – não só tecnológica mas também do lado realmente humano da coisa. E aí cabe perfeitamente a sua definição de autonomia: ”Habilidade de se relacionar de igual pra igual com qualquer pessoa.”

    PESSOAS > TECNOLOGIA

  • Bruno Santana

    Eu acho que esse é o seu grande diferencial Henrique Bastos: o foco no ser humano.

    Somos todos seres humanos e nunca atingiremos a perfeição. Mas o lado bom é que unidos somos sempre mais. 1 + 1 pode ser maior que 2. Sinergia!

    A comunidade de Python é fantástica e eu concordo com você em ter essa preocupação para mantê-la com essa característica. Não podemos deixar a comunidade perder o que ela tem de melhor e que a faz diferente das demais.

    O código é apenas um meio, uma ferramenta. O fim é a evolução do ser humano – não só tecnológica mas também do lado realmente humano da coisa. E aí cabe perfeitamente a sua definição de autonomia: ”Habilidade de se relacionar de igual pra igual com qualquer pessoa.”

    PESSOAS > TECNOLOGIA

  • Ricardo Portela da Silva

    Fala HB, como sempre lançando assuntos interessantes. O que tenho ouvido falar bastante e acho que um assunto interessante para uma palestra é: Como gerar valor? Que valor é esse que o cliente procura? O que o desenvolvedor agrega no produto, no software final do cliente?. Não é codificar, claro!. Que mentalidade devemos ter de gerar valor ao cliente?
    Abração!

  • Josenildo Farias

    “porém mais de cunho motivacional do que técnico. Não curto muito esse tipo de palestra”

    Pra mim o verdadeiro foco sempre deve estar nas pessoas, a tecnologia, o técnico, é apenas uma ferramenta, um meio pra resolver os problemas que no fim tem a ver com as pessoas.

    A cada dia vemos mais tecnologias surgindo, e é claro que o caminho para o futuro é a extinção de diversos cargos e atividades hoje desempenhadas manualmente pelo homem, e nesse momento o importante novamente serão as pessoas, aqueles que tiverem o poder e a habilidade de lhe dar com termos mais humanos, de ser mais humanos, é que vão se destacar.

    • Falou tudo Josenildo

    • Isso é interessante. Quando pensamos em problemas é realmente muito comum pensarmos em uma solução objetiva.

      Acho que com o tempo e a repetição dos problemas, percebemos padrões e começamos a buscar o meta-problema… o problema que se ajustado, elimina todo aquela mesma classe de problemas futuros, juntos.

      • Josenildo Farias

        Perfeito, me lembra a Toyota e sua técnica dos 5 porquês, vemos uma maquina com problema, e achamos que o problema é a maquina como um todo, sendo que um simples parafuso frouxo pode ta parando todo sistema, o problema era o parafuso, não a maquina.

  • “porém mais de cunho motivacional do que técnico. Não curto muito esse tipo de palestra”

    É triste saber que muitos devs pensam assim. Na minha opinião um evento tinha é que ter mais palestras desse tipo. Provocar novos pensamentos e ideias e não só ficar na velha maneira de palestrar: apresentar slide com código e explicar código do slide como se todos os presentes estivessem entendendo.

    Precisamos trocar experiências e falar daquilo que nos “atormenta” e “inquieta” e é isso que você faz muito bem HB.

    “Humanos são seres sociais presos à sua experiência individual. Ninguém sente exatamente o que o outro sente”

    Perfeito! Temos que nos esforçar a olhar alem da nossa “bolha”.

    Mais uma vez muito obrigado por este tipo de conteúdo HB.

    • Obrigado, André!

      Compreendo seu ponto e concordo, tanto que eu faço as palestras que faço.

      Mas a preferência de cada pessoa por determinado tipo de palestra é legítima. Depende muito do que cada um está vivendo e buscando.

      Realmente ir além da bolha é um desafio enorme.