5 mitos sobre a vida de freelancer explicados por um freelancer

Esbarrei com a matéria “5 mitos sobre a vida do freelancer” publicada pela Info. A matéria é interessante levantando os principais questionamentos feitos por pessoas que buscam uma vida com estabilidade.

No entanto, o texto tem 2 problemas, que me motivam a redigir este artigo.

O 1º problema é que os mitos não são esclarecidos por Freelancers, mas por representantes de empresas que criam mercados digitais e intermediam contratação de mão de obra.

O 2ª problema é que a matéria acaba por reduzir o Freelancer à um trabalhador sem patrão, se desconectando do que pra mim significa ser Freelancer.

O que é um Freelancer?

Um Freelancer é um profissional autônomo.

Mas o que é autonomia?

É impossível compreender o que é ser Freelancer, sem compreender o que é autonomia e como ela se contrapõe com os arranjos populares de emprego.

Segundo o dicionário:

AUTONOMIA

  1. capacidade de governar-se pelos próprios meios
  2. direito de um indivíduo tomar decisões livremente; independência moral ou intelectual
  3. segundo Kant (1724-1804), capacidade da vontade humana de se autodeterminar segundo uma legislação moral por ela mesma estabelecida, livre de qualquer fator estranho ou exógeno com uma influência subjugante, tal como uma paixão ou uma inclinação afetiva incoercível
  4. capacidade de um veículo (esp. aeronave e navio) percorrer uma distância em determinado tempo sem que haja necessidade de reabastecimento

ETIMOLOGIA
gr. autonomía ‘direito de reger-se segundo leis próprias’

ANTÔNIMOS
dependência, servidão

Um Freelancer é uma pessoa que recusa “a oferta irrecusável de emprego” e decide empreender a própria vida. É o que chamo de eupreendedor.

Vamos aos mitos da matéria

1. “Freelancer sempre ganha mais/menos do que contratado.”

Comparar valores absolutos não é suficiente, pois ignora-se o fator tempo.

Em geral, salário é a quantia que alguém recebe para trabalhar 220 horas por mês. Então uma pessoa que ganhe R$ 5.000,00 por mês, ganha aproximadamente R$ 22,73 por hora.

Se um Freelancer vender um projeto por R$ 3.000,00 para entregar em 2 semanas (88 horas), seu valor/hora terá sido R$ 34,10. Ou seja, o faturamento é menor, mas a rentabilidade é maior.

Em geral conforme o Freelancer se empreende e aprende mais sobre dinheiro, negociação, eficiência no trabalho, vendas, etc, ele tende a melhorar a sua rentabilidade, alcançando um valor absoluto que considere sustentável e simultaneamente mantendo tempo livre o bastante para reinvestir em se eupreender mais. É um ciclo virtuoso.

2. “Não existe hora para trabalhar.”

Certo. Não existem obrigações pressupostas de horário. Cada projeto ou negócio tem o seu contexto. Alguns exigem muita sincronia com outras pessoas, outros precisam apenas de reuniões virtuais semanais.

Na prática, cada pessoa é única e quanto mais você se conhece mais aprende o que é melhor pra você e o que não funciona bem. Conheço Freelancers que são pessoas regradas, com rotinas previsíveis, e conheço outros que alternam 3 semanas de pijama com 3 semanas de viagens. Esse último é mais o meu estilo.

O incrível é a oportunidade que o Freelancer tem de respeitar o seu próprio funcionamento, sem culpa por estar violando regras da empresa e sem se submeter à tradicionais fontes de estresse como trânsito, transporte público precário e horários rígidos de trabalho que na prática acabam por te prender no escritório de maneira improdutiva.

3. “Ninguém é freelancer por opção.”

Certo. Não é opção. Ser Freelancer é uma decisão.

Decidir vem do latim decidere, que significa cortar. Você corta as demais opções em prol de uma específica.

Quando você decide ser Freelancer, você rompe com o paradigma tradicional que entende emprego como a única forma de trabalho. A falta de exemplos, e discussões abertas sobre o tema o deslocam à posição equivocada de “opção de quem não consegue emprego”.

4. “Há menos oportunidades de contato social.”

Erradíssimo. Ter autonomia sobre os seus horários te abre mais possibilidades de se organizar para aproveitar oportunidades de interação que seriam impossíveis de conceber estando preso no escritório. Inclusive, no escritório você interage com quem a empresa contratou e não com quem você quer interagir.

Sobre o trabalho em si: não confunda ser Freelancer com trabalhar sozinho. E quando se trabalha sozinho, cafeterias, casas colaborativas, gomas e templos são lugares incríveis para conhecer pessoas interessantes e ampliar sua rede.

5. “Não há nenhuma garantia.”

Não, não há. Já dizia o ilustre poeta Tomás de Lara: “A vida não é fácil. Ninguém disse que seria.”

Essa questão ainda está ancorada na propaganda das “garantias do trabalhador”. Mas a maioria das pessoas que se preocupam com essas garantias, não sabem como elas funcionam. Não sabem como mudam. Não sabem calcular o custo de oportunidade dessas garantias, para julgarem por si próprias se é mesmo uma garantia ou uma esperança.

O Freelancer aprende a lidar com a volatilidade natural no seu fluxo de caixa e se prepara para o curto, médio e longo prazo. Isso trás um amadurecimento em forma de experiência e habilidade, que o torna uma pessoa mais adaptável. Afinal, na natureza, quem sobrevive não é o mais forte, nem o mais bonito, nem o mais importante, nem o mais rico, nem o mais experiente. É o que se adapta melhor.

Então ainda que tudo dê errado, se erguer uma segunda vez será mais fácil do que na primeira.

Bônus: Todo mundo deveria ser Freelancer?

Longe disso! Todo mundo é muita gente. Cada pessoa é única. Se cada um viver a vida aprendendo a ser você mesmo seria excelente.

Julgar o desconhecido pelo conhecimento limitado que se tem, é autoengano. As possibilidades são muitas e há oportunidades fora do paradigma tradicional ao qual somos doutrinados.

Eu tenho aprendido muito na minha caminhada como Freelancer na área de tecnologia e o meu crescente aprendizado sobre autonomia tem sido chave:

Conclusão

Ainda que ser Freelancer não seja para você, busque a sua autonomia. É possível ser autônomo em qualquer relação de trabalho. Do concursado ao empresário. Seja cada vez mais responsável pela sua própria vida, sem delegar sua felicidade à terceiros.

No final das contas, viver é arriscado. A questão é se o caminho que você percorre é definido por você, ou se é definido pelos outros.

[]’s, HB — Freelancer, e um feliz desempregado há mais de 4 anos.

  • Marcos Vilela

    Otimo artigo, tmb ja fui freelancer e gostaria de compartilhar um ´pouco de como eu me organizava na época!

    Ser seu próprio chefe tem lá seus desafios, mas é só organizar o dinheiro e a rotina que tudo fica mais fácil. O objetivo de ter mais liberdade só se concretizará se você se planejar para que a instabilidade financeira, típica da carreira de freelancer, não impacte sua vida de forma negativa.

    >>Prepare a mudança de vida

    Faça a transição da vida de assalariado para a de freelancer da forma menos radical possível, pois você não sabe exatamente qual será sua renda.

    >>Calcule sua renda de um novo jeito

    A vida de freelancer pode ser uma gangorra. Em alguns meses você pode acumular vários projetos e ganhar muito, mas em outros pode correr o risco de ter menos trabalhos do que gostaria. Por isso, é mais seguro estipular uma meta de quanto você precisa ganhar por ano, e não por mês

    >>Saiba quanto custa sua hora de trabalho

    Precificar seu tempo é indispensável. Para saber quanto custa sua hora de trabalho, olhe para os concorrentes e para o seu público. “Sinta quanto seu cliente está disposto a pagar”. Se o tempo estiver escasso ou o prazo de entrega for muito apertado, aumente o preço.

    >>Pague um salário para si mesmo

    Para trabalhar por conta própria, você terá gastos que não tinha antes, como a conta de telefone, custos de deslocamento e impostos que antes eram descontados do salário. Some todas essas despesas e as exclua do seu faturamento líquido.

    >>Prepare um ambiente de trabalho

    Você não quer que o telefone ou a campainha da sua casa atrapalhem o fluxo de trabalho, mas ao mesmo tempo quer poder sair para buscar os filhos na escola ou ir à academia no meio da tarde? Para equilibrar produtividade com flexibilidade, estabeleça metas diárias. Por exemplo, cumprir 50% das tarefas até o horário do almoço para poder sair e tomar um café.

    seguroduasrodas.com

  • Matheus Pereira

    Muito legal Henrique, parabéns!
    A questão 4 é a que mais me preocupa da forma como foi colocada no texto original. A interação é reduzida a “ir à academia e conhecer outras pessoas”, um olhar ainda preso ao “modelo convencional” onde as interações são pouco incentivadas. Como bem lembrado, acabamos limitados a um círculo profissional definido pela empresa. Daí a necessidade de novas interações em momentos fora do trabalho, como se nosso tempo no trabalho fosse desconectado da nossa vida como um todo.

    Você chega bem próximo do que penso quanto a possibilidade de interação quando precisamos dialogar para que nossa atividade possa fluir. Aqui cabem incontáveis interações: clientes, usuários, colegas de profissão, colaboradores de outras áreas complementares (designers, jornalistas, advogados, contadores, vendedores, e muitos outros dependendo da atividade). Num “modelo convencional”, sua interação seria limitada aos seus colegas de trabalho e/ou contatos estabelecidos pela sua função na empresa.

    Também não é citado o tempo disponível para a família, quando o Freelancer opta por trabalhar em casa e pode, por exemplo, almoçar com os filhos.

  • 😀 Excelente estou nessa vida a pouco tempo, porém estou colhendo ótimos frutos

  • Everton Massucatto

    Olá Henrique!

    Na minha opinião: Artigo perfeito!!! Parabéns!

    Compartilhando,

    A muito tempo venho levando minha vida profissioal mesclando os dois mundos, CLT e Freelancer. Pra resumir, moro em São Paulo e trabalho Home Office para uma empresa do Paraná. A contratante entrou em contato comigo oferecendo uma oportunidade no modo CLT. Vi uma ótima oportunidade de exercer minha “Autonomia”. Disse um SIM bem empolgado e mandei na lata: Se for Home Office to dentro e começo já! E cá estou a um ano de pijama fazendo reuniões via Skype 🙂

    Trabalhar na CLT Home Office me proporcionou mais Autonomia ao ponte de manter vários projetos como Freelancer.

    Para os indecisos, não impota se o seu trabalho é CLT, Frelancer, PJ… ou tudo misturado. Se você aprender a levar sua vida com Autonomia (Abraçar e se responsabilizar por suas decisões), com toda certaza alcançará seu Lifestyle Forever 😉

    Abraço a todos!

    Parabéns Henrique! Sempre acompanho suas paletras online.

    Obs: Quadno vai abrir uma nova turma para o curso Welcome To The Django?

    Agora fuuuuui 😉

  • Rafael Morais

    Excelente texto e palestra! Não perdi um detalhe. Parabéns pelo seu trablaho Henrique, conquistou mais um amigo e seguidor!

  • Rodrigo Júnior

    Ótimo texto!

  • Welton Vaz de Souza

    Bom dia Henrique,

    Parabéns pelo artigo no seu blog.

    Realmente ainda não temos este nível de consciência e percepção da grande maioria da profissionais de TI aqui no Brasil. Parabéns, por um texto tão lucido, uma demonstração da sua experiência pessoal e profissional que com certeza é uma modelo para muitas profissionais. Meus respeitos e minha admiração.

    Obrigado, mais uma vez.

  • Satori

    Muito bom! Acabo de colocar no ar um site para unir o freelancer a quem procura trampo. O que tem de diferente dos outros sites do gênero? É gratis de verdade. http://www.trampofreela.com.br Valeu, sucesso pra nós!

  • Felippe Nardi

    Sensacional Henrique! Primeira oportunidade que tive de assistir um pedaço da sua palestra na RuPy Brasil. Vou assistir completa 🙂

    • Valeu, Nardi! Depois me diz oq vc achou aqui pelos comentários. 🙂

  • eniosp

    Muito bom o texto.
    Estou querendo me preparar para me tornar autônomo. Estou na fase de criar uma reserva inicial.
    O mais difícil até agora é tentar encontrar possíveis clientes. Como nunca me envolvi com vendas isso ainda é um pouco problemático para mim. A maioria dos sites de freelancer funciona mais como um leilão de quem faz por menos.
    Obrigado pelo artigo.

    • Enio, o exercício de criar essa reserva em si já é bem desafiador. Continue firme nele.

      Sobre clientes, o problema é o “tipo de relação comercial”. Os melhores negócios vem através de relações de confiança. Então é preciso construir essas relações.

      Procure interagir com pessoas que tem problemas que você pode resolver. Que sente dores que vc pode aliviar. Estabelecendo relações de confiança com essas pessoas, as oportunidades chegarão mais facilmente por elas ou por indicação delas.

      No “mercado frio”, em geral os negócios tornam-se impessoais, fazendo com que as partes sejam abstraídas e as pessoas envolvidas acabam “perdendo importância” sobrando olhos apenas para o resultado da barganha.

  • Kelvin

    Gostei do artigo! Parabéns 😀

  • John Muconto

    otimo artigo

  • ótimo, bem explicado e sem enrolação.

  • jandersonfc

    Fala Henrique, ótimo artigo e ótima apresentação, Parabéns!

    No final de 2013 a ficha caiu para mim, todas essas questões de ter autonomia, a sensação de falta de tempo livre, etc…

    Engraçado como algumas dicas que você deu na sua apresentação são semelhantes com os passos que dei para ganhar mais autonomia(regras simples, tempo livre, administrar energia), vou citar somente a primeira delas:

    1 – Gerenciar o tempo – também fiz esse time tracking , no meu caso fui ao ponto de colocar tudo. Tempo gasto com controle financeiro, com trânsito, horas trabalhadas, reuniões, assistindo seriados… quando percebi que as horas trabalhadas(não considerei reuniões e comparecer ao escritório como horas trabalhadas 😛 ) eram quase as mesmas 60hrs/mês perdidas no trânsito, coloquei um ponto final nessa história e comecei a delegar menos o meu tempo gasto para os outros.

    Enfim, autonomia é algo que ainda estou aprendendo, também estou chegando a conclusão de que ter 40hrs/semana de trabalho produtivo é quase impossível. Por outro lado, hoje já cortei as horas de reuniões, não perco mais tempo com trânsito para começar meu dia, não trabalho finais de semana e tenho mais de uma receita.

    Sei que existe muitas variáveis, mas realmente entender que autonomia > energia > tempo > dinheiro é o pulo do gato.

    • Show de bola, Janderson! Concordo com vc cara.

      O mais difícil das pessoas aceitarem, é que não há regras. Apenas recomendações e práticas que cada um precisa combinar no seu contexto para montar por si próprio o que funciona.

      Eu já vivi algumas viradas nessa jornada. A que mais me ajudou foi aprender a organizar as contas e ponderar sobre como isso se relaciona com o tempo. Foi quando começou a sobrar tempo p/ fazer as coisas.

  • Dhiego

    Estou lentamente me preparando para essa jornada “eupreendedora”.

    A “estabilidade” é um conceito falso demais. Só deveria ser aplicada em um mundo estático, bem diferente do nosso, certo?
    Vivia com o sonho de alcançar a tão famosa estabilidade. Achava que a tinha encontrado, tempos atrás. Até notar que, por prestar serviços para uma estatal (a mesma durante muitos anos), vivia trocando de contratos. Um belo dia, a troca não foi vantajosa. E aí meu amigo, o “sonho” de estabilidade foi por água abaixo, já que a empresa em que me encontrava não tinha trabalho algum p/ mim, havia perdido esse contrato e eu me vi nessa sinuca. Acho importante as pessoas avaliarem bem esta “estabilidade” que desejam ou que acham que encontraram.

    • Falaê, Dhiego!

      Te entendo bem. Eu vivi algo parecido em contexto completamente diferente. Não tinha nenhuma relação com estatais.

      O que tinha em comum, era o meu comportamento de delegar à outro a responsabilidade pela minha vida e pelo meu futuro.

      Eu levei bastante tempo pra entender que também não se trata de independência. Somos interdependentes, por isso eu busco interagir o tempo inteiro com a comunidade.

      Mas também não podemos ser dependentes. E isso ninguém ensina e a gente acaba aprendendo com as crises.

      Segue em frente e vamos papeando. 😉

  • Excelente texto. Parabéns!

  • Hugo Leonardo C. Silva

    Impressionante.
    Olá Henrique, achei muito interessante sua abordagem sobre o tema. Me identifico com sua proposta e me encontro no problema de falta de autonomia.
    Estou em uma busca recente pela a autonomia e vi uma luz de inspiração para que possa alcança-la.

    Agradeço o exelente artigo foi muito proveitoso para mim.

    Meus parabéns.

    • Valeu, Hugo! Tamos aê! Compartilhe sua perspectiva. Me ajudou bastante.